Prémio Arco-íris, reconhecimento pelo trabalho na luta contra a homofobia
Enquanto Associação de defesa dos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero (LGBT), a Associação ILGA Portugal tem sempre tido como causa primeira a luta contra a homofobia.
É que a homofobia, enquanto atitude de hostilidade para com as LGBT, tem consequências que conhecemos bem demais: na família, na escola, no acesso a bens e serviços, no trabalho, e até na própria lei, a homofobia vai-se manifestando diariamente, continuando a tentar tornar-nos menos do que somos.
E embora a Associação ILGA Portugal continue a empenhar-se na divulgação de situações de discriminação e no combate ao preconceito homófobo, esta nossa causa não é, nem deve, nem pode ser só nossa.
Tal como outras formas de exclusão, a homofobia contribui para uma sociedade mais fracturada, menos saudável e menos funcional. Porque a homofobia é, afinal, um problema social, teremos todas que o resolver em conjunto. E porque a luta contra a homofobia não tem ainda um fim à vista, ela torna-se tanto mais urgente e merecedora do nosso esforço concertado. Na realidade, a nossa causa é e deve ser uma causa aberta.
Daí que a Associação ILGA Portugal atribua anualmente o seu Prémio Arco-Íris, como forma de reconhecimento e incentivo a personalidades e a uma instituição que, com o seu trabalho, se distinguiram na nossa - e vossa - luta contra a homofobia.
Prémios Arco-Íris 2009
Prémios Arco-Íris 2008
- Equipa do SIM do Prós & Contras sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo
- São José Almeida
Equipa do SIM – Prós & Contras sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo
“Em nome de valores” foi o título do Prós & Contras dedicado ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No dia 16 de Fevereiro de 2009, Fátima Campos Ferreira moderou o primeiro grande debate num canal generalista de sinal aberto sobre a discriminação das pessoas LGBT.
E numa noite se deu um enorme passo no sentido da igualdade.
Mais: numa noite se alterou também em Portugal de forma significativa a percepção pública sobre o que é ser lésbica, gay ou bissexual.
Tudo graças à brilhante e diversa equipa do SIM, com Isabel Mayer Moreira e Miguel Vale de Almeida no palco, e com Fernanda Câncio, Carlos Pamplona Corte-Real, Daniel Oliveira e Rui Tavares (entre outr@s) na plateia.
A Equipa do SIM não se limitou a vencer o debate sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo; a Equipa do SIM venceu também o debate de fundo sobre os valores em nome dos quais vale a pena lutar. E foi claro para Portugal inteiro que esses são os valores da Igualdade, da Liberdade e da Dignidade de todas as Pessoas.
Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo Pereira está a fazer-se ao Prémio Arco-Íris há uns anos. Tem tentado de tudo – até num artigo da Visão sobre o Zézé Camarinha falou do “culto da homossexualidade” e da ILGA. E no ano passado os Gato Fedorento fizeram um sketch fantástico sobre o “Vrnnnnhiec” – ou a proposta de um “nome alternativo” para o casamento para gays ou lésbicas.
Este ano lá cedemos.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo esteve pela primeira vez no centro do debate nas legislativas e no programa “Esmiúça os Sufrágios”, Ricardo Araújo Pereira confrontou Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas, defensores do “Vrnnnnhiec”, com questões complicadas. “Os meus pais não procriam desde 1974. Acha que devem continuar casados?” – perguntou RAP a MFL, reduzindo ao absurdo a sua posição absurda. Já a questão a Paulo Portas na realidade não foi tão complicada assim, mas ele respondeu como se tivesse sido.
Mas com medo que não fosse suficiente, RAP também explicou os fundamentos do casamento num artigo da Visão (a propósito do BPN, claro) e ainda fez questão de, com ironia e sarcasmo, defender a adopção por casais de pessoas do mesmo sexo no programa Governo-Sombra, na TSF, a propósito de crianças que foram abandonadas por pais adoptantes com a “sexualidade certa”.
O uso sistemático do humor é uma arma particularmente eficaz na luta contra o preconceito – e, por mais que quiséssemos tentar ignorá-lo, a verdade é que o RAP desta vez conseguiu mesmo (e até já pode vangloriar-se junto do Zé Diogo Quintela).
Rapazes Nus a Cantar – Henrique Feist/UAU
"É só chamares por mim, não me ames em segredo, vem chamar por mim, para quê ter medo?” – eis um excerto da letra de um tema que aparece recorrentemente neste musical fora do armário que só rejeita a vulgaridade do preconceito.
Um musical sobre a nudez de corpos e sentimentos que é 100 gay, assumido, desempoeirado, que fala sobre sexo e sobre amor entre homens - e que simultaneamente retrata a dimensão de universalidade das vidas destes homens.
A UAU aceitou o desafio, Henrique Feist concretizou-o com uma excelente adaptação, tradução e encenação. E o Casino Estoril foi o espaço em que todas as pessoas puderam ver os Rapazes Nus a Cantar.
Para além da saudável objectificação de homens, já era altura de haver um espectáculo com esta diversidade de representações de homens gay, a provar de uma vez por todas que os armários já eram.
São José Almeida
Vencedora de um Prémio Arco-Íris em 2006, São José Almeida recebe o Prémio Arco-Íris 2009 pela sua peça na Pública de 12 de Julho de 2009 intitulada ‘O Estado Novo dizia que não havia homossexuais, mas perseguia-os’.
Escreve São José Almeida: “O&64257;cialmente não se podia ser. No discurso nem sequer existiam. Mas na prática era comum. Quer para o povo, assíduo dos urinóis, estações e docas, preso e humilhado pela polícia; quer para as elites sociais e culturais que viviam a sua sexualidade numa semitolerância envergonhada e claustrofóbica.”
Trata-se de uma peça histórica. Desde logo por, através de um enorme trabalho de recolha, revelar uma discriminação escondida que funcionava – e funciona – através de silêncios e silenciamentos. Mas é histórica sobretudo por, pela primeira vez, tirar essa discriminação do armário, expondo-a e denunciando-a, obrigando a que tod@s reescrevamos uma história que tem sido escrita como se as pessoas LGBT não existissem – obrigando-nos assim a rejeitar de vez a história escrita à medida da homofobia.
E trata-se de uma peça particularmente actual. Porque é o conhecimento desta nossa história recente que nos permite compreender o momento que vivemos hoje, em que a “semitolerância envergonhada e claustrofóbica” herdeira do Estado Novo continua a recusar o igual reconhecimento das relações familiares das pessoas LGBT, em que a humilhação continua a existir na própria lei. Neste tempo de reparação, é fundamental dar a conhecer o passado – e a história de uma discriminação que está longe do fim e que é muito mais violenta e generalizada do que @s herdeir@s do Estado Novo gostam de admitir.
E se a inércia do passado contamina o presente, são artigos como este que nos permitem garantir um futuro melhor.