Enquanto Associação de defesados direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero (LGBT), a Associação ILGA Portugal tem sempre tido como causa primeira a luta contra a homofobia.
É que a homofobia, enquanto atitude de hostilidade para com
@s LGBT, tem consequências que conhecemos bem demais: na
família, na escola, no acesso a bens e serviços, no
trabalho, e até na própria lei, a homofobia vai-se
manifestando diariamente, continuando a tentar tornar-nos menos do que
somos.E embora a Associação ILGA Portugal continue a
empenhar-se na divulgação de situações de
discriminação e no combate ao preconceito
homófobo, esta nossa causa não é, nem deve, nem
pode ser só nossa.
Tal como outras formas de exclusão, a homofobia contribui para
uma sociedade mais fracturada, menos saudável e menos funcional.
Porque a homofobia é, afinal, um problema social, teremos tod@s
que o resolver em conjunto. E porque a luta contra a homofobia
não tem ainda um fim à vista, ela torna-se tanto mais
urgente e merecedora do nosso esforço concertado.
Na realidade, a nossa causa é e deve ser uma causa aberta.
Aliás, desde a revisão constitucional de 2004, que fez com que a Lei Fundamental passasse a proibir explicitamente a discriminação com base na orientação sexual, lutar contra a homofobia na sociedade e na lei é mais do que um requisito ético: é agora também a concretização de um dos princípios basilares da República Portuguesa.
Daí que a Associação ILGA Portugal atribua anualmente o seu Prémio Arco-Íris, como forma de reconhecimento e incentivo a personalidades e instituições que, com o seu trabalho, se distinguiram na nossa – e vossa – luta contra a homofobia.
Do ponto de vista político, o ano de 2007 ficou marcado pelo referendo sobre a despenalização do aborto, cujo resultado expressivo demonstrou a consciência generalizada da importância dos direitos sexuais e reprodutivos. Em Fevereiro de 2007, dissemos SIM à dignidade, à autonomia e à responsabilidade de cada mulher – e dissemos simultaneamente NÃO à consagração legal do fundamentalismo religioso.
Também em 2007, foi finalmente aprovado o novo Código Penal que acabou com a discriminação na idade do consentimento; que instituiu agravamentos penais em função de motivações homófobas; que veio penalizar explicitamente o incitamento público à discriminação com base na orientação sexual, nomeadamente através da difamação ou da injúria em meios de comunicação social; e que reconhece a equivalência absoluta de casais heterossexuais e homossexuais nomeadamente na punição da violência doméstica, no direito a apresentar queixa ou no direito a não testemunhar. Todas estas mudanças, que reivindicávamos há muito, vieram na sequência da proposta da Unidade de Missão para a Reforma Penal, que tivemos oportunidade de premiar no ano de 2006.
E 2007 foi um ano especial para a Associação ILGA
Portugal.
Desde logo, obtivemos o registo provisório da
Associação enquanto Instituição Particular
de Solidariedade Social como reconhecimento do nosso trabalho no plano
social.
Foi também em 2007 que o nosso Arraial Pride, o maior evento
LGBT do país, encontrou o seu espaço de
eleição: o Terreiro do Paço, centro
simbólico de Lisboa.
Alargámos ainda o âmbito da actuação
política da Associação com trabalho sectorial como
a “Proposta de Boas Práticas para o Relacionamento entre as
Forças e Serviços de Segurança e as Cidadãs
e os Cidadãos LGBT” ou com o trabalho na área da
Transsexualidade, tendo surgido aliás um novo Grupo de Interesse
na Associação: o GRIT - Grupo de Reflexão e
Intervenção sobre Transsexualidade.
Do ponto de vista mediático, o último ano foi
também um ano de maior visibilidade da Associação
– a título de exemplos, podemos referir as
participações nos depoimentos da telenovela
Páginas da Vida (na SIC) ou a participação semanal
no programa Janela Aberta do Rádio Clube.
Consolidámos enfim o reconhecimento público e
institucional que tornou a nossa Associação parceira
preferencial em questões ligadas à luta contra a
discriminação com base na orientação sexual
e na identidade de género.
E tivemos também reconhecimento internacional do nosso trabalho,
continuando a representar Portugal na EU Network da ILGA Europe.
Mas 2007 foi e é também o Ano Europeu da Igualdade de
Oportunidades para Tod@s, que, um pouco por toda a Europa, pretendeu
combater a discriminação com base no género, na
origem étnica, na religião, na deficiência, na
idade e na orientação sexual.
Este Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Tod@s contribuiu
para vincar a importância da luta contra a
discriminação das pessoas LGBT em Portugal e para marcar
a importância desta luta na própria identidade europeia,
mostrando afinal mais uma vez que esta não é nem deve ser
uma luta específica das pessoas LGBT – ela é e tem que
ser uma luta de toda a sociedade, do Estado português e da
União Europeia.
O objectivo do AEIOT é a abordagem transversal das várias discriminações, marcando, no entanto, as especificidades de cada uma - e vale a pena marcá-las. O recente Eurobarómetro que pretendeu avaliar a percepção da discriminação nos vários países da União Europeia demonstra que em Portugal a discriminação com base na orientação sexual é a mais gritante: 67% das pessoas inquiridas afirma que esta discriminação é generalizada, pelo que é fundamental combatê-la sem hesitações.
Embora não
haja
uma recolha sistemática de dados no que diz respeito à
discriminação com base na orientação
sexual, temos tido inúmeras
queixas na Associação ILGA Portugal ao longo dos anos.
Mas é fácil
perceber a extensão e a gravidade desta
discriminação: basta
pensar que a orientação sexual é a única
das categorias
enquadradas no Ano Europeu que ainda gera discriminação
na própria
lei, nomeadamente no que diz respeito a questões tão
fundamentais
como o casamento ou a parentalidade.
Para além da lei, muitas
instituições continuam a praticar a
discriminação, muitas vezes
de forma indirecta (por exemplo, através do critério do
estado
civil). Um exemplo de discriminação institucional
é a exclusão
liminar de homens gay na doação de sangue, quando a
homossexualidade masculina não pode naturalmente ser
considerada, em
si mesma, como uma prática de risco. É ainda
problemático o
reconhecimento de casais de pessoas do mesmo sexo na política de
habitação social, em hospitais, em lares de pessoas
idosas, no
direito ao reagrupamento familiar, ou no acesso a empréstimos ou
seguros, entre outros.
E as pessoas transsexuais são por sua vez
relegadas para um limbo legal que se torna também um limbo
social,
porque a lei ainda se recusa a reconhecer a sua existência e a
sua
identidade, excluindo-as do acesso aos direitos mais basilares de
qualquer cidadã ou cidadão, como a
integração social, familiar, o
acesso ao mercado de trabalho, à educação, e
à saúde.
A cidadania
plena e a igualdade de oportunidades ainda não são, por
isso,
reconhecidas às pessoas LGBT – e esta não é uma
“questão
fracturante”. Pelo contrário, este Ano Europeu da Igualdade de
Oportunidades para Tod@s tem ajudado a chamar a atenção
para o
facto de que a fractura já existe, aqui e agora, em todos os
guetos
– o legal, o institucional e inevitavelmente o social – que são
impostos pela homofobia, com consequências na vida quotidiana das
pessoas LGBT.
Eliminar esta “fractura” significa lutar
activamente contra a homofobia, eliminando a
discriminação na lei
para que o Estado possa lutar de forma credível e persistente
contra
a homofobia na sociedade.
É com esse objectivo que temos vindo a colaborar com a Estrutura de Missão para o AEIOT, não só de forma consultiva em relação a actividades do Plano Nacional de Acção mas também contribuindo com actividades nossas para o Plano Aberto do AEIOT.
Elza Pais
é
Coordenadora da Estrutura de Missão para o Ano Europeu da
Igualdade
de Oportunidades para Tod@s. É também Presidente da
Comissão para
a Cidadania e Igualdade de Género que veio substituir a
Comissão
para a Igualdade e Direitos das Mulheres.
E é sobretudo a pessoa
responsável pela integração efectiva da
área da orientação
sexual em várias actividades do Plano Nacional de
Acção do AEIOT.
Em Portugal,
pela primeira vez, houve iniciativas governamentais de luta contra a
discriminação com base na orientação sexual
e na identidade de
género – factores de discriminação que têm
sido
sistematicamente ignorados pelo Estado português e por sucessivos
Governos. Aliás, pela primeira vez, Associações de
defesa dos
direitos das pessoas LGBT foram também oficialmente reconhecidas
enquanto parceiras nessa luta.
Temos que realçar o Colóquio
“LGBT – Cidadania Plena Para Tod@s” que se realizou no dia 17
de Maio – Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia – e que foi
organizado pela Estrutura de Missão para o AEIOT em
colaboração
estreita com as associações. Tratou-se do primeiro evento
desta
natureza organizado por uma estrutura governamental e contribuiu para
a identificação de situações de
discriminação bem como de boas
práticas no combate à exclusão das pessoas LGBT. E
é de referir
ainda a Festa da Diversidade e da Igualdade de Oportunidades, em que
organizámos conjuntamente com a Estrutura de Missão um
debate que
incidiu sobre a discriminação múltipla, mostrando
que a orientação
sexual é, tal como o género, uma característica
transversal – e
um debate em que, tal como no Colóquio LGBT, Elza Pais fez
questão
de estar presente e intervir.
Sabemos bem
(até
por comparação com outros países da União
Europeia) que a
execução do AEIOT em cada país – e a
inclusão da discriminação
das pessoas LGBT, a única que continua a gerar verdadeira
relutância
e resistência – depende da vontade política da pessoa
responsável. E Elza Pais tem vontade de lutar contra a
discriminação
com base na orientação sexual e na identidade de
género.
Em
deslocações um pouco por todo o país, fez
questão de pronunciar
sempre as palavras “lésbica, gay, transsexual”, palavras
proibidas ainda em tantos contextos – e palavras que nunca ouvimos
pronunciadas, por exemplo, por qualquer membro do Governo ou por
um(a) Presidente da República. Elza Pais compreendeu
nomeadamente
que estas palavras são fundamentais, porque nos identificam,
porque
nos visibilizam, porque nos fazem existir – e compreendeu que o
silêncio e o silenciamento são armas por excelência
da homofobia:
não pronunciar as palavras “lésbica”, “gay” ou
“transsexual” significa compactuar com um sistema que
alternadamente nos diz que não existimos ou que não
devemos
existir.
E as reacções que conheceu um pouco por todo o
país
(para além das dificuldades em abordar esta
discriminação nas
actividades que não foram promovidas pela própria
Estrutura de
Missão) ter-lhe-ão dado uma ideia mais abrangente do peso
da
homofobia – e do peso da discriminação na vida das
pessoas LGBT
em Portugal. Elza Pais compreendeu afinal a importância do
Orgulho
que afirmamos por oposição à vergonha para a qual
somos
sistematicamente remetid@s.
Aliás, Elza Pais fez questão de aceitar o nosso convite para fazer um discurso no Arraial Pride 2007, juntando-se a nós nesse momento de luta pela Igualdade – e de celebração da luta pela Igualdade. Mais uma vez, um facto inédito – a pessoa responsável por uma estrutura governamental fez questão de estar presente, com orgulho, no maior e mais visível evento LGBT do país.
Enquanto
responsável pelo AEIOT, Elza Pais assumiu como sua a
responsabilidade de mostrar ao país que as pessoas LGBT
são
pessoas. Mas fê-lo porque, ao contrário do Estado
português, não
nos considera pessoas de segunda.
Já o tinha provado ao
subscrever a nossa Petição pela Igualdade no Acesso ao
Casamento
Civil – e aliás tinha também participado na
moderação de um
painel no Fórum do Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo, que a
Associação ILGA Portugal co-organizou com o Centro de
Estudos em
Antropologia Social do ISCTE em Novembro de 2005.
Provou-o de novo
ao pronunciar-se publicamente (e quase de forma solitária)
contra a
legislação sobre Procriação Medicamente
Assistida aprovada em
2006 que veio reforçar o regime de apartheid ainda existente em
Portugal para lésbicas e gays quanto ao casamento e
também quanto à
adopção. É que mulheres solteiras (heterossexuais
ou lésbicas) e
casais de lésbicas foram impunemente excluídas do acesso
à saúde,
ao arrepio da Constituição – ainda que o actual
Presidente da
República Portuguesa nunca tenha respondido ao nosso pedido de
fiscalização da constitucionalidade desta lei.
E vale a pena
olharmos um pouco para esta lei, aprovada no ano passado. Em Espanha,
as técnicas de PMA estão disponíveis desde 1988
para qualquer
mulher maior, em bom estado de saúde psico-física, que,
uma vez
tendo sido prévia e devidamente informada, aceite recorrer
à PMA de
forma livre e consciente. Em Portugal, o acesso às
técnicas de PMA
existe apenas para casos de infertilidade – mas para além disso,
só têm acesso à PMA as mulheres que sejam
devidamente tuteladas
por um homem (casadas ou em união de facto).
Sexismo e homofobia
aparecem afinal aqui lado a lado, uma vez mais. Aliás, porque
temos
sempre vindo a analisar com particular atenção a
homofobia e os
seus mecanismos, sabemos que ela está umbilicalmente ligada ao
sexismo: a homossexualidade e a transsexualidade são entendidas
como
violações dos papéis de género
hegemónicos.
Sendo a
sexualidade estruturante do género, a
discriminação com base na
orientação sexual e na identidade de género
é inevitavelmente um
dos pilares da discriminação com base no género.
Elza Pais mostrou
compreendê-lo ao criticar esta lei – e, enquanto pessoa empenhada
na igualdade de género, mostrou compreendê-lo na
preocupação que
dedicou à discriminação das pessoas LGBT no
âmbito deste Ano
Europeu.
Claro que há ainda muito a fazer – e esperamos continuar a trabalhar com Elza Pais para que a discriminação com base na orientação sexual e na identidade de género não volte para o armário, para que as palavras “lésbica, gay, bissexual e transsexual” não deixem de ser pronunciadas, e para que a igualdade de género seja assim prosseguida de uma forma simultaneamente mais abrangente e mais incisiva.
Mas após a
experiência do AEIOT, sabemos que Elza Pais partilha connosco
não
só a convicção de que género e sexualidade
são indissociáveis,
mas também a preocupação genuína com a
Igualdade. As suas
convicções e a sua clara vontade de lutar por elas
merecem hoje o
nosso reconhecimento – e, claro, o nosso incentivo para que
continuemos tod@s a lutar por uma sociedade mais justa, mais coesa,
ou, nas palavras de Zapatero aquando da aprovação da
igualdade no
acesso ao casamento civil, por uma sociedade mais decente.
Premiamos
hoje assim o empenho claro de Elza Pais nesta luta contra a
discriminação com base na orientação sexual
e na identidade de
género, porque foi esse empenho que fez com que passasse a haver
afinal mais igualdade de oportunidades na luta pela igualdade de
oportunidades para tod@s. Celebramos hoje esse empenho com o
Prémio
Arco-Íris 2007 e, claro, com o nosso aplauso.
O Prémio
atribuído a Elza Pais inclui o troféu Arco-Íris
bem como o
tradicional diploma do Prémio Arco-Íris, para além
de instrumentos
para a continuação da luta contra a homofobia.
Tod@s @s
premiad@s receberão um DVD do filme “Fabulous! The story of
queer
cinema”, um documentário que mostra a evolução nas
representações cinematográficas da
homossexualidade – e a forma
como a homofobia tem condicionado essas representações ao
longo do
tempo. Tod@s @s premiad@s receberão ainda o CD “Luz” de Pedro
Abrunhosa, por razões que serão explicadas em breve. E
Elza Pais
recebe ainda um livro “Crónica” que relata a iniciativa
transfronteiriça “Ágora – o debate peninsular” de 2006.
Esta
iniciativa, promovida anualmente pelo Gabinete de Iniciativas
Transfronteiriças da Junta da Extremadura, pretende estabelecer
anualmente uma ponte de diálogo entre Portugal e Espanha. Em
2006, a
Ágora Palestra foi dedicada à percepção
pública da
homossexualidade em Espanha e Portugal – duas realidades
actualmente bem diferentes sobretudo como consequência da
intervenção do poder político – e contou com a
participação de
um representante da Associação ILGA Portugal, estando o
respectivo
relato incluído nesta edição.
A Associação
ILGA Portugal entende que é fundamental que este AEIOT
não seja
apenas uma excepção num quadro de negligência dos
direitos das
pessoas LGBT – e é portanto fundamental que a luta pela
Igualdade
continue depois de 2007. Para isso, temos vindo a reivindicar medidas
que marquem uma verdadeira mudança de atitude do Estado face
às
pessoas LGBT – e vincámos ao longo do ano a nossa expectativa de
que 2007 fosse finalmente o ano em que a homofobia deixaria de estar
consagrada na lei. Paradoxalmente, 2007 foi simultaneamente o ano em
que se tornou evidente que para o poder político a luta contra a
discriminação com base na orientação sexual
e na identidade de
género está longe de ser prioritária.
Lembramos que em 2004, na
sequência do nosso trabalho, Portugal tornou-se o primeiro
país da
Europa e o terceiro país do mundo a incluir explicitamente na
sua
Constituição (no artigo 13º) a
proibição da discriminação com
base na orientação sexual.
Em 2005, o Governo socialista de
Zapatero consagrou em Espanha a plena igualdade legal para gays e
lésbicas no acesso ao casamento civil e, por inerência, no
acesso à
adopção.
2006 foi, por sua vez, marcado pelo crescendo da
reivindicação pública e da discussão
mediática da questão da
igualdade no acesso ao casamento civil em Portugal. A
Associação
ILGA Portugal promoveu e entregou ao Presidente da Assembleia da
República a Petição pela Igualdade no Acesso ao
Casamento Civil,
que recolheu 7133 assinaturas. Simultaneamente, um casal de mulheres,
Teresa Pires e Helena Paixão, viram o conservador da 7.ª
Conservatória do Registo Civil de Lisboa indeferir a sua
pretensão
de casamento, tendo interposto um recurso da decisão que chegou
agora ao Tribunal Constitucional. Também dois partidos com
representação parlamentar, o Bloco de Esquerda e o
Partido
Ecologista «Os Verdes», apresentaram então
projectos-lei para
acabar com a discriminação no acesso ao casamento; e a
Juventude
Socialista, cuj@s deputad@s integram o grupo parlamentar do Partido
Socialista, apresentou um ante-projecto que deveria dar origem a um
projecto em 2007, propondo-se convencer o Partido Socialista a
aprová-lo.
No entanto, 2007
foi um ano de adiamento sistemático da questão da
igualdade no
acesso ao casamento civil. O deputado Pedro Nuno Santos, líder
da
Juventude Socialista, interveio na Assembleia da República no
dia 17
de Maio, dia que promovemos como Dia Mundial de Luta Contra a
Homofobia, reafirmando que a luta contra a discriminação
com base
na orientação sexual pressupunha a igualdade no acesso ao
casamento
civil e o fim da actual discriminação na lei. Helena
Pinto,
deputada do Bloco de Esquerda, subscreveu a posição,
desafiando o
Partido Socialista a aprovar essa medida. Seguiu-se o
silêncio.
Aliás, a nossa Petição pela Igualdade no Acesso ao
Casamento Civil não foi ainda apreciada nem discutida em
plenário,
apesar do número de assinaturas que recolheu – e apesar de todos
os prazos legais terem sido ultrapassados há muito.
A Associação ILGA Portugal continuará inevitavelmente a chamar a atenção para a urgência da luta contra a discriminação – e para a urgência da igualdade. Mas foi a sociedade civil que veio uma vez mais demonstrar a compreensão da justiça desta reivindicação.
Francisco Pinto Balsemão é uma personalidade sobejamente conhecida em Portugal. Fundador do Partido Social Democrata, é Presidente do Conselho de Administração do Grupo Impresa – que detém, nomeadamente, os canais de televisão da SIC e o jornal Expresso.
Um jornalista da
SIC quis casar-se e pediu uma licença de casamento. Esta
licença
foi concedida por Francisco Pinto Balsemão. O facto parece banal
e
não merecedor de qualquer nota. E será assim em breve,
queremos
acreditar.
No entanto, sendo este jornalista gay, a decisão
torna-se histórica.
Não sendo
possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal,
este
jornalista e o futuro marido tiveram que se deslocar a outro
país. E
porque Espanha, Bélgica, Holanda, África do Sul e o
Estado de
Massachusetts nos E.U.A. exigem que pelo menos uma das pessoas seja
nacional ou residente do respectivo país para se poder celebrar
o
casamento, o destino do casal foi o Canadá – o único
país que
permite o casamento de duas pessoas não nacionais e não
residentes.
Mas, ainda que casados no Canadá, este casamento não
tem transcrição em Portugal – ou seja, a lei portuguesa
não o
reconhece e não lhe atribui quaisquer efeitos legais.
Nomeadamente,
não confere o direito a uma licença de casamento.
Francisco Pinto
Balsemão optou assim por tomar uma decisão que
terá entendido como
a mais correcta e a mais justa, mas que se adiantou afinal à
própria
lei.
Em questões de direitos fundamentais, acreditamos que a lei
deve antecipar-se à sociedade e ser um motor de mudança
de
mentalidades. Seja em relação ao fim do apartheid
racista, seja em
relação ao fim da exclusão de mulheres no acesso
ao direito de
voto, ou seja em relação ao fim da exclusão de
gays e de lésbicas
no acesso ao casamento civil, a lei tem que saber recusar o
preconceito e deixar de o legitimar.
O exemplo de Francisco Pinto
Balsemão vem mostrar que, pelo contrário, a sociedade se
vai
antecipando já à lei, reconhecendo com naturalidade o que
a lei
ainda recusa. E vem mostrar que o reconhecimento do casamento entre
pessoas do mesmo sexo é uma questão de justiça.
Trata-se por
isso de um óptimo exemplo de verdadeiro respeito pelas pessoas;
um
exemplo que esperamos venha a ser seguido por todo o tecido
empresarial português. A liberdade e a igualdade são
valores de
tod@s, o respeito pelas pessoas é um valor de tod@s – e
são
valores de tod@s porque fazem com que tod@s ganhemos, porque
contribuem para uma sociedade menos fracturada, mais saudável e
mais
funcional. Foi essa a lição de democracia de Francisco
Pinto
Balsemão; uma lição simples mas absolutamente
eloquente que
celebramos hoje com o Prémio Arco-Íris 2007 e com o nosso
aplauso.
O Prémio atribuído a Francisco Pinto Balsemão inclui o troféu Arco-Íris bem como o tradicional diploma do Prémio Arco-Íris, para além de instrumentos para a continuação da luta contra a homofobia: uma vez mais o DVD do filme “Fabulous! The story of queer cinema”, o CD “Luz” de Pedro Abrunhosa e ainda o livro “L’homophobie” de Daniel Borrillo. Daniel Borrillo é Professor de Direito na Universidade de Paris X e foi um dos intervenientes no Fórum do Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo e no Colóquio “LGBT – Cidadania Plena para Tod@s” organizado no âmbito do Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Tod@s.
«Para a presunçosa
arrogância da
ignorância nacional, Gisberta era apenas uma bicha brasileira
drogada que se vestia de mulher e se prostituía na rua e que -
como
muitas outras o são também diariamente por todo o
país - podia e
merecia ser agredida. Só que Gisberta morreu.»
As palavras são
de São José Almeida, Prémio Arco-Íris 2006,
num artigo de opinião
no Público.
2006 foi marcado
pelo chamado “caso Gisberta”. A transsexual Gisberta Salce
Júnior
sofreu agressões violentas diárias e sevícias
sexuais que
culminaram com a sua morte por afogamento, após ter sido atirada
para um poço de mais de 15 metros de profundidade.
Os menores que
a torturaram ao longo de três dias, que ignoraram os pedidos de
ajuda de Gisberta, e que ponderaram a hipótese de a incendiar
antes
de decidirem finalmente atirá-la para o poço, afirmaram
que se
tratou de uma simples “brincadeira”.
Os menores foram inicialmente acusados de homicídio tentado e de ocultação de cadáver, mas o Ministério Público reduziu a primeira acusação para “ofensas corporais agravadas”. O poder judicial optou por não responsabilizar os menores pela morte de Gisberta - e também não responsabilizou a Oficina de S. José, instituição que os tutelava, nem o Estado, responsável último pelos menores institucionalizados. O sentimento de injustiça e de impunidade foi agravado pelo completo silêncio do poder político que não fez qualquer reflexão sobre as suas responsabilidades neste caso. Para o poder político, Gisberta parece não ter existido.
E a realidade
é
que, para o Estado português, Gisberta nunca existiu. Como muitas
pessoas transsexuais em Portugal, Gisberta não teve nunca
direito à
sua identidade. Mesmo depois da sua morte, Gisberta continuava a ter
um nome masculino para muitos meios de comunicação social
(que
insistiam em classificá-la como “um sem-abrigo” ou “o
transsexual”) - e para o próprio Tribunal, que tentava averiguar
as condições da morte de uma pessoa que afinal não
existia.
Ignorar a identidade de género de Gisberta é ignorar a
sua existência - e ignorar a forma como o vazio legal em
relação à
transsexualidade acaba por convidar à
marginalização.
Mas 2007 não deixou Gisberta cair em esquecimento. O documentário Jogo de Espelhos, na RTP, da autoria da jornalista Margarida Metello, foi em busca de Gisberta, dando-lhe uma vida, uma família, uma história, fazendo-a existir. Mas foi Pedro Abrunhosa quem a imortalizou na “Balada de Gisberta”, um tema do seu último álbum “Luz”.
Nesta Balada, Pedro Abrunhosa canta na 1ª pessoa - Pedro Abrunhosa é Gisberta, identifica-se com Gisberta, incorpora-a, “perde-se no nome” e canta a sua história, fazendo com que Gisberta não seja uma pessoa distante, “estranha”, “estrangeira”. E na letra da canção, é a própria Gisberta que reflecte, consciente, sobre a sua fragilidade e sobre a sua situação de exclusão:
Trouxe
pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão
pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.
E o amor
é
tão longe.
O caso Gisberta
é um caso que exige uma análise lúcida e a
tentativa de
compreensão da sociedade que construímos e dos erros que
são
cometidos nessa construção. Exige que alertemos decisores
políticos
para o que leva a que “a distância até ao fundo” possa ser
tão
pequena – e o que faz “o amor ser tão longe”.
Pedro
Abrunhosa desafia-nos a pensar, desafia-nos a questionar e a repensar
o mundo em que Gisberta não pôde viver.
Em Espanha, o governo socialista de Zapatero atribuiu a cidadania plena às pessoas LGBT - nomeadamente através da aprovação de uma lei da identidade de género que facilita a correcção do registo de sexo e do nome, visando combater a exclusão social das pessoas transsexuais. Em Portugal, a Associação ILGA Portugal – e o seu Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transsexualidade – tem vindo a reivindicar que a actual maioria aprove uma lei da identidade de género e explique de forma bem clara aquilo que deveria ser óbvio e que obviamente não o é: que Gisberta tinha direito a existir.
É esse direito a existir que Pedro Abrunhosa tenta restituir a Gisberta, com esta sua Balada. Pedro Abrunhosa dá um passo fundamental para devolver a Gisberta a sua identidade e torna evidente a sua preocupação com a dimensão política da arte – e esta consciência cívica merece hoje o nosso reconhecimento.
Mas Pedro
Abrunhosa vai mais longe. Desafia-nos também a sentir. Este
é um
caso que ao mesmo tempo transcenderá sempre o domínio da
racionalidade.
E precisamos também de lembrar – e chorar –
Gisberta. Precisávamos desta Balada de Gisberta e desta Luz de
Pedro
Abrunhosa que homenageamos hoje.
O Prémio atribuído a Pedro Abrunhosa inclui o troféu Arco-Íris bem como o tradicional diploma do Prémio Arco-Íris, para além de instrumentos para a continuação da luta contra a homofobia: o livro “L’homophobie” de Daniel Borrillo; o DVD do filme “Fabulous! The story of queer cinema”; e ainda o DVD do filme “Transamerica”, uma representação da vida de uma mulher transsexual nos Estados Unidos, desta vez com um final feliz – porque as experiências de vida das pessoas transsexuais são diversas, apesar das dificuldades e reivindicações comuns.
A grande
surpresa mediática de 2007 chama-se “As Tardes da Júlia”:
um
talk-show que ocupa as tardes da TVI, conduzido por Júlia
Pinheiro.
Num horário habitualmente marcado pelo silêncio em
relação às pessoas LGBT, “As Tardes da
Júlia” dedicou várias
edições a conhecer e a dar a conhecer melhor a realidade
das
pessoas LGBT.
Uma
especificidade da orientação sexual é o facto de
ela não ser
visível. Daí que um país possa ser surpreendido
com uma primeira
página do Expresso que afirma que 10% das pessoas são
homossexuais.
A interiorização de que o mundo não é feito
de pessoas
heterossexuais só acontece com a visibilidade das pessoas
homossexuais. É que a invisibilidade da homossexualidade
só é
quebrada quando ela é afirmada – e o silêncio é por
isso uma
arma da homofobia.
E a homossexualidade tem mesmo que se tornar
visível porque o heterossexismo não quer vê-la:
basta pensar que
duas mulheres que vivem juntas deverão ser apenas “amigas”. O
heterossexismo treina as pessoas para que na sua estrutura mental
não
“caiba” a homossexualidade. É fundamental alterar esta
percepção
e interiorizar a ideia de que há lésbicas e gays no
supermercado,
no autocarro, na escola, no hospital, na repartição de
finanças.
Daí a importância da edição d’”As Tardes da
Júlia” dedicada ao tema “Somos gays… e então?”. O
programa
incluiu entrevistas com várias lésbicas e vários
gays e mostrou
compreender não só a necessidade da sua
visibilização mas a
necessidade de mostrar a diversidade de lésbicas e gays,
contribuindo assim (até com o título escolhido para a
edição)
para a nossa luta “pelo direito à indiferença”.
“Pelo
direito à indiferença” é, como saberão, o
lema da campanha
publicitária que a Associação ILGA Portugal
lançou em 2005.
Porque a ideia de diferença só é relevante quando
essa diferença
gera desigualdade, o nosso objectivo é eliminar a desigualdade
na
lei e na sociedade, para que a apregoada “diferença” na
orientação sexual perca saliência. Para que
não seja esta
“diferença” a servir para catalogar as pessoas e para as atirar
para planos diferentes de cidadania.
Mas esta luta começa pelo princípio: mostrar a homofobia, denunciá-la, questioná-la e desconstruí-la é um primeiro passo fundamental. E “As Tardes da Júlia” deram também esse passo numa outra edição em que assistimos a um depoimento tocante de um adolescente de 15 anos que, sendo gay, quis contrapor o seu exemplo às reacções homófobas de outros convidados do programa – e a inclusão deste depoimento foi mais uma escolha inteligente e responsável do programa “As Tardes da Júlia”.
Outra
edição
notável deste programa foi dedicada à parentalidade de
gays ou de
lésbicas. Já existem obviamente muit@s gays e
lésbicas com filh@s
– quer de relações anteriores com pessoas de sexo
diferente, quer
através da inseminação, quer através da
adopção
monoparental.
Mas mais uma vez, sobretudo numa questão que é
sistematicamente abordada através das lentes do preconceito,
é
crucial a visibilidade – para que se perceba que falamos de
famílias concretas e não de ideias abstractas e fantasmas.
Aliás,
foi com base em muita investigação baseada em
famílias concretas
que os órgãos colegiais de Pediatria, Psicologia e
Psiquiatria nos
Estados Unidos da América, compostos por muitos milhares de
profissionais que têm acesso a toda a investigação
produzida neste
campo e que conseguem averiguar a sua credibilidade, já vieram
endossar, sem deixar margem para dúvidas, a
adopção por casais
homossexuais – e as capacidades parentais de gays e lésbicas.
No que diz
respeito à parentalidade, não duvidamos que os interesses
e
direitos das crianças são soberanos e prioritários
em relação a
quaisquer outros – mas são precisamente esses interesses e
direitos que são incompatíveis com as leis actuais.
Porque uma
análise das causas da institucionalização de
crianças e o número
de crianças institucionalizadas deveriam ser suficientes por si
só
para condenar a actual exclusão a priori de casais de pessoas do
mesmo sexo no acesso à adopção.
Porque se um casal de pessoas
do mesmo sexo cria um filho em conjunto, claro que ambos os membros
do casal têm que poder deter o poder parental sobre essa
criança –
porque é a própria criança que ficará
prejudicada e desprotegida
perante a lei caso isso não aconteça.
Mostrar famílias e histórias de vidas concretas, denunciar as ficções que limitam irresponsavelmente as vidas de muitas crianças, contrapor a realidade das pessoas à ficção do preconceito: eis uma tarefa de cidadania mais uma vez bem desempenhada pel’ “As Tardes da Júlia”.
E também
as
pessoas transsexuais precisam de poder mostrar a sua realidade –
uma realidade sistematicamente ignorada ou, em alternativa,
prisioneira de representações estereotipadas, que merece
e precisa
de ser visível e audível na sociedade.
Há muitas pessoas para
quem a sua identidade de género – a identificação
psicossocial
como homem ou mulher – não corresponde ao sexo que lhes foi
atribuído e registado no assento de nascimento. O programa “As
Tardes da Júlia” quis fazer ouvir as suas vozes, dedicando uma
edição a mulheres transsexuais (as pessoas com uma
identidade de
género feminina, e cujo sexo atribuído à
nascença foi o
masculino) e outra edição a homens transsexuais (as
pessoas com uma
identidade de género masculina, e cujo sexo atribuído
à nascença
foi o feminino).
E, valorizando ambas, vamos enfatizar esta última
edição, porque foi de facto pioneira – mesmo porque,
apesar de
igualmente relevante do ponto de vista estatístico, é
essa a
realidade mais sistematicamente ignorada nos meios de
comunicação
social.
Nessa edição de “As Tardes da Júlia”,
vários
homens transsexuais contaram as suas experiências, denunciaram as
dificuldades inerentes à transição em Portugal,
afirmaram com
naturalidade a sua identidade e diversidade – e provaram, mais uma
vez com os seus exemplos pessoais, como é fundamental e justo
reconhecer e respeitar a identidade de cada pessoa.
O programa
ajudou a perceber a distinção entre identidade de
género e
orientação sexual, ao incluir o exemplo de um homem
transsexual
gay. De uma forma simples, explicou-se assim que, tal como as pessoas
cissexuais (ou seja, tal como as pessoas não-transsexuais), as
pessoas transsexuais podem ter qualquer orientação sexual.
E
realçamos ainda uma intervenção do sexólogo
Santinho Martins que
frisou a urgência da aprovação de uma Lei da
Identidade de Género
em Portugal – porque a lacuna na lei significa um convite à
exclusão e o não-reconhecimento da cidadania das pessoas
transsexuais.
Aliás, a complementaridade das várias
intervenções
nesta edição d “As Tardes da Júlia” foi
notável – e o
resultado final extremamente positivo. Dedicado a um tema muito pouco
abordado em Portugal, este programa conseguiu falar para uma grande
audiência da situação social, clínica e
legal das pessoas
transsexuais de uma forma séria e empenhada – e foi mais um
passo
no sentido da integração social das pessoas LGBT em
Portugal.
Os meios de
comunicação social têm um papel particularmente
importante no
combate à discriminação das pessoas LGBT. Como
qualquer
discriminação, esta é também baseada num
preconceito que encontra
a sua força na ignorância – pelo que
informação e formação
são indispensáveis para a combater. O poder
mediático traz
associada esta responsabilidade de contribuir para uma discussão
séria que combata o facilitismo do preconceito.
Ao longo de 2007,
a equipa do programa “As Tardes da Júlia” provou não
só ter
consciência da sua responsabilidade social mas ser capaz de
contribuir para uma efectiva promoção da cidadania plena
para tod@s
– afinal, um verdadeiro Serviço Público que justifica
hoje este
nosso reconhecimento e o nosso aplauso.
O Prémio atribuído ao programa “As Tardes da Júlia” inclui o troféu Arco-Íris bem como o tradicional diploma do Prémio Arco-Íris, para além de instrumentos para a continuação da luta contra a homofobia: o livro “L’homophobie” de Daniel Borrillo; o DVD do filme “Fabulous! The story of queer cinema”; e ainda o CD “Luz” de Pedro Abrunhosa.
Em Portugal, tem
havido uma evolução também na
atenção mediática à
discriminação com base na orientação sexual
e na identidade de
género. Não podemos deixar de chamar a
atenção para Fernanda
Câncio, Prémio Arco-Íris 2005, que em 2007
continuou a insistir na
urgência da igualdade e a denunciar a violência do
preconceito
contra as pessoas LGBT em artigos de opinião na Notícias
Magazine,
no Diário de Notícias e no blog cincodias.net. O
único “problema”
dos artigos de Fernanda Câncio é serem sempre tão
fortes que nos
deveriam obrigar a repetir a atribuição do Prémio
Arco-Íris
anualmente...
Outro artigo que merece ainda o nosso destaque foi
uma peça no Expresso que, ainda que refém da ideia de
binarismo,
lançou o debate sobre as pessoas Intersexo – um debate ainda
embrionário em Portugal, embora claramente necessário.
E em
2007, as pessoas LGBT tornaram-se também mais visíveis em
vários
meios de comunicação social – e chamamos a
atenção para uma
entrevista de João Grosso à revista Caras e ainda para
uma sólida
reportagem na Visão sobre adolescentes homossexuais.
Porque a homofobia se alimenta da invisibilidade, a visibilização d@s LGBT tem sido uma preocupação permanente da Associação ILGA Portugal. Mas se, por entre armários que subsistem, vai crescendo em Portugal a percepção da realidade LGBT, é fundamental que @s LGBT possam simultaneamente ver-se representad@s na ficção, no seu duplo papel de reflexo e modelo da realidade. É que “um milhão de portugueses são homossexuais” mas continuamos muito longe de ver lésbicas, gays, bissexuais e transgénero a perfazer 10% das personagens de, por exemplo, um filme ou uma telenovela.
Este ano, na
literatura, o romance de Rosa Lobato Faria “A alma trocada” ou o
romance de Eduardo Pitta “Cidade Proibida” deram protagonismo às
personagens LGBT. Mas foi o cinema, com a sua visibilidade e impacto,
que nos trouxe este ano uma surpresa chamada “A outra margem”.
Para
além dos filmes de João Pedro Rodrigues, não nos
lembramos de um
filme português das últimas décadas que tenha como
protagonista um
homem gay. Mas este é um filme que, sobretudo, aborda e explora
a
homofobia. Quisemos por isso realçar também o trabalho do
realizador e argumentista, Luís Filipe Rocha.
Ricardo – a
personagem interpretada por Filipe Duarte – é um homem gay,
transformista num bar de Lisboa. O seu companheiro morreu e vimos a
saber que se suicidou. Nunca nos é dito porquê – mas as
pistas
estão lá.
Quanto Ricardo vai ao Alentejo dar a notícia aos pais
do companheiro, a reacção é o insulto e a
ameaça. “Paneleiro do
caralho” é o grito do pai; a mãe diz só que o
filho já estava
morto há muito tempo. Esta cena, um retrato cru de homofobia,
não é
infelizmente só ficção. O insulto continua a ser
constitutivo da
identidade das pessoas LGBT, que conhecem o insulto antes até de
se
conhecerem. É no insulto que gays e lésbicas crescem,
é no insulto
que descobrem afinal a sua identidade. E não se trata de
qualquer
insulto, porque também nos insultos há uma hierarquia. E
a
realidade é que a taxa de ideação e tentativa de
suicídio em
jovens homossexuais é muito superior à de jovens
heterossexuais. O
preço da homofobia é ainda, muitas vezes, a morte.
Ricardo
sobrevive a esta confrontação, mas tenta suicidar-se
também pouco
depois. É essa tentativa falhada de suicídio que lhe
permite
retomar o contacto com a sua irmã Maria e conhecer o seu
sobrinho
Vasco. Ambos vivem em Amarante, a terra natal de Ricardo – mas
ambos vivem também outras margens: Vasco tem Síndroma de
Down,
Maria é mulher (e mãe solteira).
Quando Ricardo vai para
Amarante, retoma ainda o contacto com o seu pai, José – e vemos
como uma vez mais a única margem completamente
intransponível é a
que o separa do filho gay. Uma vez mais, a homofobia vence.
Mas é com Vasco – e com Maria – que Ricardo reaprende a viver. O filme conta-nos a história desta reaprendizagem – e vamos mesmo ter que revelar o final: é que Vasco, que quer ser actor de teatro, acaba por ir viver com o tio para Lisboa, com o encorajamento da mãe. Contra todas as expectativas geradas pelo preconceito, é Ricardo que afinal vai desempenhar o papel de “pai social” de Vasco. O mesmo filme que denuncia as vitórias da homofobia mostra que afinal é possível derrotá-la.
Uma nota final para referir um pormenor importante: é que a melhor amiga de Ricardo em Lisboa é uma mulher transsexual e o filme tem até o cuidado de fazer a distinção entre orientação sexual e identidade de género. Pedagógico mas subtil, “A outra margem” é claramente um filme que quer intervir na sociedade que cria todas estas margens. E é também um filme que quer mostrar como a comunicação entre as várias margens é possível – e embora se trate de uma coincidência, poderia quase ser um filme dedicado ao Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Tod@s, conjugando personagens que encaixam em diferentes categorias de discriminação.
É com orgulho que vemos hoje em exibição, em salas de cinema por todo o país, um filme LGBT português – e é com orgulho que temos a oportunidade de o celebrar aqui, hoje, com este nosso Prémio Arco-Íris 2007 e com o nosso aplauso.
O Prémio atribuído ao filme “A outra margem” e a Luís Filipe Rocha inclui o troféu Arco-Íris bem como o tradicional diploma do Prémio Arco-Íris, para além de instrumentos para a continuação da luta contra a homofobia: o livro “L’homophobie” de Daniel Borrillo; o DVD do filme “Fabulous! The story of queer cinema”; e ainda o CD “Luz” de Pedro Abrunhosa.
Por tudo isto,
@s noss@s premiad@s merecem a nossa sincera homenagem.
Cabe-nos
agradecer, reconhecer, aplaudir e incentivar @s noss@s convidad@s
através deste Prémio: o Prémio Arco-Íris
atribuído pela
Associação ILGA Portugal, associação de
defesa dos direitos de
lésbicas, gays, bissexuais e transgénero, em
reconhecimento dos
seus contributos para uma democracia mais aberta, inclusiva e
verdadeira, baseada na valorização da diversidade e na
igualdade de
direitos.