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Discurso homofóbico desvalorizado dentro das escolas
2018-10-01
Discurso homofóbico desvalorizado dentro das escolas
E se um aluno chamar paneleiro, roto, larilas ou maricas a outro? Os colegas e professores vão achar que faz parte, é brincadeira, a menos que o outro se tenha assumido como gay. O bullying homofóbico tende a ser reduzido ao insulto directo e à agressão física. E nem todos os professores estão preparados para agir.
 
Portugal aprovou há quase uma década legislação sobre Educação Sexual, que estabelece o respeito pelas diferentes orientações sexuais. O investigador Hugo Santos queria saber até que ponto a violência contra lésbicas, gays, bissexuais, transgénero (LGBT) está ou não a ser travada. A tese de doutoramento Discursos sobre bullying e homofobia na e da escola: que (im) possibilidades de cidadania para jovens LGBT? foi, na terça-feira, aprovada por unanimidade na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.
 
O bullying é uma forma de violência entre pares, intencional, reiterada, que acarreta uma diferença de poder. O investigador dinamizou 36 grupos de discussão, envolvendo 351 jovens, na sua maioria heterossexuais, entre os 16 e os 18 anos, a frequentar 12 escolas do distrito do Porto, que lhe disseram que isso faz parte do seu dia-a-dia.
 
Para ser objecto de bullying, basta ser diferente. E ser diferente pode, simplesmente, querer dizer ter boas notas. Entre as raparigas, sobressai o aspecto físico – ter peso a mais ou ter uma altura acima da média. Entre os rapazes, sobressai a orientação sexual (real ou percebida) e alguma forma de incapacidade (física ou mental).
 
Para ser vítima de bullying homofóbico não é preciso ser gay ou lésbica ou bissexual, é só não encaixar no arquétipo de homem ou mulher. Um rapaz que gosta de dançar ou uma rapariga que gosta de jogar futebol, por exemplo.
 
Desde logo, o investigador encontrou homofobia entranhada no discurso quotidiano. Amiúde, os rapazes tratam-se uns aos outros por paneiro, larilas, roto ou maricas.
 
“Imagine, eu estou aqui entre amigos que conheço há muito tempo e digo: ‘Ó, és um paneleiro, tu; eu sei o que é que tu queres’”, exemplificou um rapaz. “É uma maneira de pegar com ele.” Reconheciam nisto uma espécie de performance. “Paneleiros, larilas, rotos. Essas coisas fazem parte. Não significa que se é contra os homossexuais ou isso; é uma forma de tratamento, vamos dizer assim”, disse outro.
 
Sem intenção de ofender?
Alegaram os rapazes que não há nesse comportamento intenção de ofender. Explicaram algumas raparigas que eles fazem aquilo “para se armarem”, isto é, para enaltecer a sua masculinidade. Demarcando-se da possibilidade de serem vistos como homossexuais, insultando-se uns aos outros daquela forma.
 
“Parte substancial daquilo que se entende por bullying homofóbico está relacionado com processos de construção de masculinidade, manifestando-se não só, mas sobretudo, com os usos de linguagem homofóbica”, concede Hugo Santos. Para lá da intenção de quem usa estes termos, “não se deve negligenciar o efeito” nas pessoas que estão a descobrir que têm uma orientação sexual diferente ou a lidar com uma identidade de género distinta da que lhe foi atribuída à nascença ou que têm uma forma de vestir ou de gesticular não convencional. Não será por acaso que muitos sentem “necessidade de se esconder”.
 
As aulas de educação sexual incluem transmissão de informação sobre métodos contraceptivos, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, a violência de género e no namoro, e diversidade sexual. Os alunos têm experiências distintas, alguns queixam-se do carácter demasiado tecnicista das abordagens e da repetição das temáticas, mas parecem ter os conhecimentos essenciais sobre orientação sexual.
 
O investigador deparou-se muito mais com um discurso de aceitação (“Cada um é como é; cada um faz aquilo que gosta; se não afecta a minha vida, quem sou eu para criticar?)” ou de aceitação condicionada (“Não tenho nada contra, mas se querem ser respeitados têm de se dar ao trabalho; não é andar por aí a fazer bichices, aos beijos e isso!”) do que com um discurso de intolerância (“Não é normal! Não é normal! Normal é homem e mulher!”).
 
Essa intolerância revelou-se mais direccionada para o sexo masculino. O que é perturbador, nota Hugo Santos, é “sobretudo a feminilidade nos homens”. “Se houver um rapaz que seja [homossexual] e tenha uns tiques e isso, metem-no logo para um canto”, comentou uma aluna. “Eu não tenho nada contra os gays, tenho é contra as bichas”, declarou um rapaz.
 
Sem surpresa, notou que a transexualidade gera ainda mais incompreensão do que a homossexualidade entre estudantes. “A transexualidade é encarada como uma forma mais radicalizada de homossexualidade”, observou. “Era recusada, ora como um exagero, ora como um subterfúgio.”
 
“Já tive um aluno que era ‘diferente’"
Dinamizou 14 grupos de discussão com 75 professores de 12 escolas públicas do distrito do Porto. Muitos usavam a expressão “aluno/a diferente” quando queriam dizer “homossexual”. E alguns contavam episódios concretos de bullying homofóbico, desvalorizando a mote orientação sexual (real ou percebida).
 
“Já tive um aluno que era ‘diferente’ e às vezes assistia-se a comentários desagradáveis”, relatou uma professora. Certa ocasião, alguém deixou um guarda-chuva cor-de-rosa no bengaleiro. Quando se perguntou de quem era, houve logo quem respondesse que devia ser daquele rapaz. Quando ele faltava à aula, perguntava-se o motivo e havia logo alguém a dizer algo como: “Deve ter partido uma unha.”
 
Exemplos como este levam Hugo Santos a concluir que os professores tendem a desvalorizar o discurso homofóbico, a ignorá-lo. Quando actuam, o mais provável é limitarem-se a dizer: "Não chames esses nomes, isso é feio!"
 
“Em vez de pegar naquele insulto e abordar a questão da violência contida daquela linguagem, optam por um ‘deixa andar’, ‘faz parte’, ‘é natural’”, lamenta. Não ajuda que haja hoje “uma retórica sobre policiamento de linguagem e ‘politicamente correcto’”. Não falta gente disposta a levantar a bandeira da liberdade de expressão para justificar a linguagem homofóbica e outras. Resultado: só o insulto directo e a violência física acabam por ser considerados bullying homofóbico e por merecer atenção de alunos e professores.
 
Há professores que admitem não estar preparados para agir. Alguns desses revelavam ter medo da reacção dos encarregados de educação, se se puserem a falar de diversidade sexual na aula. “O que poderão pensar?” Outros alegam falta de competências. “Como faço para trabalhar estas questões? Contacto uma associação LGBT? Ponho os alunos a fazer trabalhos?” E isto, no entender do investigador, é algo que deve ser enfrentado.
 
In Público, 1 de outubro de 2018
 

 

 
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