Qual é a «génese» do seu livro?
Eu quis dar uma outra interpretação das passagens da Bíblia sobre a homossexualidade, para mostrar que a tradição bíblica, no seu conjunto, era oposta à homofobia.
De que modo a homossexualidade é abordada na Bíblia?
Em primeiro lugar através das personagens típicas (como David e Jónatas), que encarnam estados de vida (amizade, vida de casal) ou funções (defesa militar, pedagogia). Certas personagens da Bíblia utilizaram o charme homossexual como artimanha para poder eliminar mais facilmente os inimigos militares de Israel. Quanto à homossexualidade pedagógica, ela servia para iniciar os gays ou as lésbicas adolescentes púberes, não só à sexualidade mas também aos problemas éticos que ela induzia.
Quais são esses problemas éticos?
Quer seja hetero ou homossexual, a prática sexual confronta o ser humano com problemas éticos. Os gays e as lésbicas encontram no seu caminho a oposição, por vezes violenta, de heterossexuais homofóbicos. Isto obriga-os a reflectir sobre a questão da legitimidade da sua orientação sexual e a encontrar fachadas eficazes para escapar às violências dos seus perseguidores. É ocasião enfim, para eles, de reflectir nas causas profundas de um fenómeno psicológico, moral e social como a homofobia.
A homossexualidade não é portanto aceitável senão dentro do contexto destes estados de vida ou destas funções?
A Bíblia justifica apenas as formas de homossexualidade moralizadas, isto é, úteis a si e aos outros. Ela apenas reprova em matéria de sexualidade um hedonismo cujas consequências se revelariam em factos prejudiciais tanto para si como para os outros.
Porque é que a Bíblia deu lugar a tantas interpretações erradas relativamente à homossexualidade?
Isso provém da existência de uma corrente homofóbica composta de três grupos, ideologicamente semelhantes, que se sucederam na história: os sacerdotes yahvistas, autores do Levítico, os Chassídicos, que se agruparam à volta dos sacerdotes Macabeus e por fim o farisaísmo, do qual Paulo de Tarso (que ditou a Lucas um Evangelho e os Actos dos apóstolos) era um representante. Daí certas frases da Bíblia que parecem condenar a homossexualidade masculina: «Não te deitarás com um homem como te deitas com uma mulher: é uma abominação» e «O homem que se deita com um homem como com uma mulher: os dois cometeram uma abominação, de morte eles morrerão o seu sangue sobre eles».
Esta passagem encontra-se com efeito no Levítico, livro escrito pelos sacerdotes yahvistas que formavam na época uma corrente homofóbica. Mas é preciso saber que os grupos da sociedade israelita da época contestaram a ortodoxia do Levítico acusando os sacerdotes deste livro de ter juntado indevidamente artigos sobre direito ao Decálogo do Êxodo, reconhecido juridicamente como o único normativo pelos profetas políticos e pelos mestres espirituais.
Porque é que esta corrente homofóbica teve tanta influência?
No século 10 a.C., os sacerdotes yahvistas serviam o culto ritual a YHVH («O que é»), o Deus dos israelitas. Foram eles que escreveram o livro do Levítico onde promulgaram um código dualista do puro e do impuro. No século 2 a.C., os Chassídicos eram partidários da ideologia dos sacerdotes yahvistas. No tempo de Jesus, os fariseus aderiam e esta ideologia claramente homofóbica comum aos sacerdotes yahvistas e aos Chassídicos. Como todo o grupo numericamente importante da sociedade israelita, estes três eram influentes.
De entre as outras interpretações que denuncia, a que se refere a Sodoma e Gomorra é particularmente surpreendente. Os seus pecados não estariam portanto ligados à prática homossexual, como se crê frequentemente?
Exactamente. Os cidadãos de Sodoma eram heterossexuais xenófobos e homofóbicos violentos que simulavam o desejo homossexual para violentar mais facilmente dois homens sem mulheres, que eles acreditavam, sem prova e portanto incorrectamente, serem homossexuais.
E chega ao ponto de falar de amizade homossexual relativamente a João e Jesus de Nazaré, qualificando este último de «figura de homem bissexual»?
São Ireneu de Lião – padre da igreja grega, bispo e primeiro teólogo do cristianismo – dizia que Jesus de Nazaré recapitulava toda a natureza humana e toda a condição humana com excepção do pecado. Ele podia sentir e compreender todas as coisas e não era por consequência estranho a nada nem a ninguém. Mesmo se, no seu caso pessoal, o seu estatuto particular de nazireu – homem consagrado a YHVH – o votava a um celibato contínuo, uma castidade, que serve ainda hoje de modelo aos religiosos e aos monges.
E sobre a homossexualidade feminina na Bíblia?
Ela é descrita através de algumas figuras (Diná, a filha de Jefté, a concubina do Levita de Efraim, Ester, etc.). No entanto a Bíblia evoca a homossexualidade feminina de um modo um pouco diferente da homossexualidade masculina: o Antigo Testamento não parece apresentar nenhum exemplo de hedonismo lésbico, o hedonismo sendo apresentado antes como um facto dos homossexuais masculinos. A Bíblia também não evoca exemplos de lésbicas vivendo em casal, se bem que ela evoca três exemplos de casais de homens.
A não ser que se seja hebraico como você, como se pode compreender a Bíblia de maneira exacta sem ter acesso ao texto original?
É difícil, mas há um meio: compreender, em primeiro lugar, o mais imparcialemnete possível, a experiência da sua própria vida e a observação que se tem da vida dos outros, a fim de utilizar a diversidade destas pré-compreensões como um instrumento susceptível de ajudar de seguida a interpretar o texto bíblico. Exemplos: um heterossexual deveria tomar consciência de que se ele não escolheu ser heterossexual mas nasceu ele próprio com esta forma de sensibilidade, o mesmo acontece com os homossexuais. Eles também não escolheram nascer como são. E se um heterossexual tomasse consciência de que a natureza lhe impõe assumir na prática a sua própria orientação heterossexual, ele poderia compreender que o mesmo sucede com os homossexuais que, eles também, são obrigados pela natureza a assumir na prática a orientação sexual que corresponde à sua forma particular de sensibilidade.
Nas fontes da Bíblia
Na sociedade israelita da Antiguidade existiam quatro grupos religiosos influentes: os políticos (que governavam o povo), os sacerdotes (que celebravam os ritos), os profetas políticos (que procuravam assegurar-se que os princípios éticos seriam bem incarnados num Estado-nação como Israel encarregado por seu turno de santificar os povos em redor com vista a estabelecer a paz entre as nações) e por fim os mestres espirituais (que procuravam promover uma religiosidade paralela a estes ritos e que consistia em devoções pessoais destinadas a ajudar cada israelita a conseguir ver por si próprio os princípios espirituais, metafísicos e éticos). Quando, no tempo de Moisés os primeiros livros da Bíblia foram redigidos, cada um destes quatro grupos da sociedade israelita exprimiu o seu ponto de vista particular e procurou defender os seus interesses próprios num livro específico: os políticos redigiram o Êxodo; os sacerdotes redigiram o Levítico; os profetas políticos redigiram o Deuteronómio («segunda lei»); e os mestres espirituais redigiram os Números.
in revista Têtu, n.º 155, Maio 2010, p. 152-153, tradução de António Frazão da entrevista de Anne Delabre com o filósofo Patrick Négrier
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