A visita do Papa parece ter gerado em índoles esmorecidas a fantasia de que Portugal seria uma sucursal do Vaticano. O frenesim de intelectuais que matutavam se deviam ou não beijar a mão ao senhor (pergunta, afinal, desnecessária, que a mão papal é mais inacessível do que pode parecer), os ateus subitamente enlevados com a beleza do altar à beira-rio - tudo isso terá criado na Igreja Católica a tentação de comentar as leis da nação civil. Assim, D. José Policarpo apareceu a criticar a aprovação do diploma pelo Presidente da República, dizendo que se o Presidente tivesse usado o veto "ganhava as próximas eleições". Temos pois o cardeal-patriarca a exercer as funções de politólogo. E alguns sectores católicos da Direita tocaram a reunir para a vingança, procurando um candidato alternativo a Cavaco Silva. É tempo de lembrar algumas verdades cristãmente chãs a estes católicos alvoroçados: em primeiro lugar, a vingança é um acto feio e, em geral, de infaustos desenlaces (mesmo na vida terrena - porque em termos de vida eterna é um desastre); em segundo lugar, ninguém impede a Igreja Católica de proibir o sagrado matrimónio aos homossexuais: isso é uma questão que os homossexuais católicos terão de resolver consigo mesmos ou com a sua Igreja; em terceiro lugar, numa sociedade democrática e laica a vida privada de cada um é com cada qual, e não cabe ao Estado decidir a organização das famílias. E não, santas almas, a poligamia não colhe - para começo e fim de conversa, porque não é um sistema democrático.
O que choca uma parte dos católicos (porque nem todos são assim; há-os tolerantes e respeitadores do amor dos outros, independentemente de sexos) e também os sectores da sociedade mais agarrados ao cobertor da tradição é a possibilidade de se constituírem famílias em que os progenitores não correspondam aos convencionais papéis de pai e mãe. Como explica Teresa Pizarro Beleza no excelentíssimo prefácio ao livro de São José Almeida "Homossexuais no Estado Novo" (edição Sextante): "A habitualmente indiscutida complementaridade dos sexos feminino e masculino esconde mal uma diferenciação vertical, de primazia... e de autoridade. O casamento foi, até hoje, se excluirmos a prática da escravatura, a forma mais perfeita de domesticação e subordinação das mulheres". O estudo agora publicado sobre o "Homicídio Conjugal em Portugal", realizado por Elza Pais, conclui que a percentagem de cônjuges assassinados aumentou, na última década, mais de 40 por cento - sendo que as percentagem de mulheres que assassinam os maridos baixou em 5 por cento. Sabemos também que a grande maioria dos abusos sexuais acontecem dentro da família - designadamente, de pais sobre filhas ou filhos. Como é possível que saibamos tudo isto e continuemos a pensar na família tradicional como o paraíso na terra? Como é possível que saibamos tudo isto e continuemos a discriminar as pessoas em função da sua orientação sexual? Como é possível que pessoas que se arrogam defensoras de valores morais, acumulando a esses valores princípios políticos e económicos liberais, pretendam regulamentar a vida dos outros a partir das práticas sexuais? O amor não dirá nada a estes carnalíssimos espíritos?
No prefácio ao livro de São José Almeida - uma obra fundamental para percebermos os guetos para que foram empurrados os portugueses que se apaixonam por pessoas do mesmo sexo - escreve ainda Teresa Pizarro Beleza: "A seguir, dizem os alarmados cidadãos moralizadores, virá a adopção, a perfilhação, a filiação. Mas é claro que virá, isto é, por acaso até já veio. E porque não haveria de vir? Porque as crianças têm forçosamente de se habituar à hierarquia de género, à violência conjugal e à autoridade marital? Quem deu à Psicologia a autoridade científica para estar tão segura da bondade da tríade pai-mãe-filho? A enorme violência que as famílias 'normais' afinal albergam não fará as pessoas bem-intencionadas duvidar de tais arranjos sociais?". Como terão sobrevivido as crianças criadas por pais viúvos, ou por tias e avós, sem os tais "modelos" (e que modelos...) do feminino e do masculino? Será melhor que as crianças cresçam sem adultos aos quais possam chamar seus, numa instituição?
As crianças têm direito a saber de quem descendem biologicamente, claro - trata-se de uma evidência de mero bom-senso, até do ponto de vista da saúde. Mas essa é uma questão que se deve pôr para todas as adopções e inseminações: não colhe como argumento para excluir os homossexuais. Foi-lhes finalmente concedido o direito a assumir as suas famílias - que isso incomode outras famílias, ou possa ser considerado fracturante, eis o que não entendo..
Texto publicado na edição da Única de 5 de Junho de 2010
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