Comunicado conjunto | A nossa autonomia não é debatível

Comunicado conjunto
A nossa autonomia não é debatível
O CH, PSD e CDS-PP agendaram para dia 19 de março a discussão em plenário de 3 projetos de lei que constituem um ataque aos direitos de pessoas trans e intersexo, visando:
- exigência de relatório médico para alteração do nome e género nos documentos
- aumento da idade mínima para alterar documentos (de 16 para 18 anos)
- eliminação do direito ao nome social
- fim de medidas de proteção de jovens trans nas escolas
- proibição de intervenções como o uso de bloqueadores hormonais por menores trans
- permitir a mutilação genital de crianças intersexo
- A revogação do reconhecimento legal do nome e identidade de género de forma autodeterminada por pessoas trans, obrigando à existência de um diagnóstico médico de “perturbação de identidade de género”. Este diagnóstico, para além de ser patologizante e desatualizado, implica comprovar quem se é.
Atualmente, o reconhecimento da identidade de género e nome é autodeterminado perante o Registo Civil, sendo apenas um processo administrativo. - A proibição do reconhecimento legal do nome e identidade de género em jovens entre os 16 e 18 anos de idade, sendo apenas permitida após os 18 anos.
Atualmente, nestas idades, o processo só pode ser feito com consentimento parental e um relatório médico que ateste capacidade de decisão e vontade informada da pessoa jovem. - A revogação da proteção em relação ao nome e identidade de género quando esta não corresponde aos documentos legais.
Atualmente, possibilita que jovens menores de 16 anos, pessoas residentes em Portugal sem nacionalidade portuguesa e pessoas que não se identificam no marcador binário tenham o seu nome (social) e identidade de género protegidos, mesmo sem alteração efetiva no documento de identificação. - A revogação de medidas afirmativas que garantem o bem-estar de crianças e jovens trans nas escolas, como o reconhecimento do nome escolhido.
Também se bane a sensibilização sobre temas LGBTI+ e iniciativas LGBTI+ afirmativas e não-discriminatórias.
Atualmente, compete às escolas garantir o bem-estar e não-discriminação através da implementação de medidas, incluindo na Educação para a Cidadania e Educação para a Sexualidade, sendo a protecção contra a discriminação pela identidade de género garantida pelo Estatuto do Aluno e Ética Escolar (Lei n.º 51/2012). - A proibição de procedimentos medicamente sãos, como o uso de bloqueadores hormonais por adolescentes trans.
Legislando estes procedimentos, o Estado intromete-se no ato médico, que deve depender de:- boas-práticas
- ponderação do risco-benefício casuístico
- o que a pessoa médica considera ser mais indicado para a pessoa de quem cuida.
Na realidade, os bloqueadores hormonais só são usados quando prescritos por serem necessários, e têm efeitos totalmente ou parcialmente reversíveis. A prescrição de bloqueadores, cumpre o parecer e as indicações médicas relativas à pessoa jovem utente e exige o consentimento parental e a vontade expressa da pessoa menor.
- A permissão de procedimentos medicamente desnecessários de modificação do corpo e características sexuais a crianças intersexo (ex. mutilação genital).
Ao contrário da prescrição dos bloqueadores hormonais em jovens trans, estes procedimentos vão contra as orientações e boas-práticas médicas internacionais, pois são realizados sem vontade expressa da pessoa menor e têm, frequentemente, consequências nefastas para a sua saúde física e mental (ex. infeções, dor crónica, perda de sensação erógena, esterilização forçada).
Atualmente, estes procedimentos são proibidos.
Estas iniciativas representam um retrocesso para todas as pessoas trans e intersexo e um ataque à integridade e autonomia individual e corporal de todas as pessoas.
Agrava-se o caso em crianças e adolescentes trans que vêem a sua proteção desaparecer, mesmo quando já iniciaram a sua transição social na escola, casa e comunidade.
Importa referir que estas alterações também significam, para muitas crianças e suas famílias, um retrocesso nos seus processos, mesmo que já completamente integradas no seu ambiente, criando medo, incerteza e degradando o seu bem-estar emocional e físico.
Enquanto o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) diz que a identidade de género de todas as pessoas deve ser reconhecida em todos os estados membros, em Portugal ainda se debate se estas pessoas devem sequer ser reconhecidas.
Cumulativamente, estas propostas legislativas são contraditórias em si mesmas.
Se, até aqui, a lei exigia que a utilização de nome social em jovens e crianças apenas pudesse ocorrer com a autorização de quem detinha a responsabilidade parental… agora, são os partidos proponentes, “defensores da família”, que desresponsabilizam as famílias da definição do bem-estar das crianças e jovens.
Por outro lado, se, hoje, a lei permite o reconhecimento da identidade através de um processo meramente administrativo, estas alterações pretendem (re)introduzir um diagnóstico patologizante, ao mesmo tempo que retiram do processo clínico a sua autonomia e a capacidade de ponderar o risco-benefício para cada jovem utente.
Estas contradições fazem-nos crer que família e pessoas médicas são conceitos voláteis, cujo papel depende apenas de um interesse ideológico, sem ter em consideração o superior interesse da comunidade que tentam visar.
Propostas desta natureza aprofundam divisões sociais já existentes e fragilizam o tecido democrático.
Ao transformar identidades e existências concretas em campo de disputa ideológica, criam-se novas linhas de fratura na sociedade, alimentando discursos de exclusão e desconfiança que enfraquecem os princípios de convivência plural que sustentam uma democracia.
Defender os direitos de pessoas trans é, por isso, também defender a capacidade democrática de uma sociedade viver com a diferença, sem a transformar em instrumento de conflito político.
Estes 3 projetos lei, cheios de argumentos sem base científica, são objetos de pareceres científicos que desmontam os argumentos e propostas do Projeto Lei n.º 391/XVII/1 do CH, ecoados no Projeto de Lei 486/XVII/1 do PSD e do Projeto de Lei 479/XVII/1 do CDS-PP:
- Parecer da SPSC – Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica
- Parecer da OPP – Ordem de Psicólogos Portugueses
- Parecer de um conjunto de profissionais de saúde e da academia especialistas nas questões de identidade de género
Enquanto conjunto de organizações da sociedade civil, com foco nos direitos LGBTI+, posicionamo-nos firmemente contra estes 3 projetos de lei pelo perigo que configuram para a segurança, bem-estar e direitos humanos básicos das pessoas trans e intersexo.
Não permitiremos discursos populistas e alarmistas.
Não permitiremos nenhum ataque aos direitos humanos.
Não permitiremos nenhum retrocesso.
Apelamos à mobilização de todas as pessoas contra estes projetos de lei. Porque juntes somos mais fortes!
- Participem na Consulta Pública que está a decorrer relativamente ao projeto lei do Chega, partilhando a vossa visão ou testemunho sobre o tema
- Saiam à rua dia 19 de março e marquem presença em frente à Assembleia da República em Lisboa, das 15h30 às 20h30
- Partilhem este apelo para chegar ao máximo de pessoas possível
Seguimos em luta!
Escrito por:
- rede ex aequo – associação de jovens LGBTI e apoiantes
- ILGA Portugal
- AMPLOS
- Casa Qui
- Opus Diversidades
Subscrito por:
- Aconchego House
- AEEA – Associação de Estudantes da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto
- APF – Associação para o Planeamento Familiar
- APF Açores
- API – Ação Pela Identidade
- Anastácia – Centro de Estudos e Intervenção Decolonial
- Arco-íris em Bragança
- ARELAS, asociación de familias de infancia e mocidade Trans de Galiza
- Arquivo Sáfico
- As Cores dos Açores
- As DEsaFiantes
- Associação Anémona
- Associação Casa Estrela-do-Mar
- Associação Centro de Vida Independente
- Associação Clube Safo
- Associação de Estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
- Associação de Estudantes da Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação da Universidade de Lisboa – AEFPIE-UL
- Associação Espaços – Projetos Alternativos de Mulheres e Homens
- Associação Faísca Voadora
- Associação monte da Amorada
- Associação No Bully Portugal
- Associação Liminal
- Associação Plano i
- Associação Poesia P’ra Todos
- Associação Portuguesa para a Diversidade e Inclusão
- Associação Portuguesa Pela Igualdade
- Associação Sexualidades Positivas
- Associação TransParadise
- Baque Mulher Lisboa
- Bialogar – Podcast de Visibilidade Bissexual
- Bloco de Esquerda
- Braga Fora do Armário
- Casa Comunitaria Aluandê – Santiago de Compostela
- CIVITAS Braga – Associação para a Defesa e Promoção dos Direitos dos Cidadãos
- Clube A4
- Coletivo LGBTI Leiria
- Coletivo Tundra
- Colombina Clandestina
- Com Alma
- Comité de Solidariedade com a Palestina | BDS Portugal
- COMOL – Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa
- COMOP – Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto
- Coletivo da Marcha LGBTQIA+ de Ovar
- Coletivo pela Libertação da Palestina
- Coletivo Sindicato
- C.S.A. A Gralha
- Dançando com a Diferença
- Edições Hórus Unipessoal Lda
- Em defesa da revolução (EDR)
- ENGIE Renováveis SA
- Estudantes do Porto em Defesa da Palestina
- FEM – Feministas em Movimento
- Feministas.pt
- Foro Galego de Inmigración – Galiza
- GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos
- Gentopia – Associação para a Diversidade e Igualdade de Género
- Gira Coletivo – Associação Cultural
- GRIT – Grupo de Intervenção e Reflexão Trans
- Grupo Partilha de Vivências
- Guimarães Pela Liberdade
- Guimarães Pela Palestina
- Guimarães LGBTQIAmais
- Kura Alma – Associação Sonhos Coletivos
- Inércia do Tempo Associação
- Headbangers Antifascistas
- HeForShe ULisboa
- Igreja da Comunidade Metropolitana de Lisboa
- Jandaia Psicologia Clínica
- Jovens do Bloco
- Leiria Feminista
- LGBTI Viseu
- Livraria das Insurgentes
- Lush Portugal
- Madeira Pride
- Marcha de Orgulho de Santarém
- Marcha do Orgulho de Guimarães
- Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Setúbal
- Marcha LGBTI+ em Aveiro
- MINHO ARCO-ÍRIS
- Movimento dxs Trabalhadorxs do Sexo
- NAEP – Núcleo de Apoio Emocional e Psicológico
- Núcleo Antifascista Guimarães
- Núcleo Feminista FDUL
- NO é Artes Performativas
- ODET – Oficina de Democracia e Ecologia Tecnológica
- Opus Gay Madeira
- OutCiências – núcleo queer da FCUL
- OVOpt – Observatório de Violência Obstétrica em Portugal
- Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia
- Passas, Prestação de Serviços e Consultoria, Sociedade Unipessoal, Lda
- Plataforma Antifascista de Lisboa e Vale do Tejo
- Plataforma Anti Transfobia e Homofobia de Coimbra
- Plataforma Artigo 65.º
- Plataforma Geni
- Plataforma Já Marchavas
- Plataforma TransParente
- PolyPortugal
- Por Todas Nós – Movimento Feminista
- Porto Inclusive
- Projeto (+) Rastreio = (+) Vida
- Projeto (A)MAR – Açores pela Diversidade
- Projeto Biodanza Cheia de Vida
- Qardume
- Queer ISCTE
- Queer Tropical
- Quir Research Hub
- Rebenta Coletivo
- rede 8 de março
- Saber Compreender
- SintraFriendly – Colectivo Juvenil LGBTIQA+ de Sintra e Apoiantes
- Sociedade das Primas – Associação cultural
- Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense
- SOS Racismo
- Teatro do Vão
- Teatro Estúdio Fontenova
- Terra Sintrópica
- Transmutar Rede Ativista
- UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta
- WikiEditoras Lx
- Xeilonas
(Lista em atualização)
Subscrições individuais
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